No Brasil, muitos preferem vingança à aplicação de justiça

O sociólogo Sergio Adorno analisa imagem de cordialidade do brasileiro e vê, em partes da sociedade, desejo de vingança contra criminosos. “Se o indivíduo comete um crime, é como se a humanidade dele não existisse.”Em entrevista à DW Brasil, o sociólogo Sergio Adorno, coordenador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP), afirmou que a sociedade brasileira tem um histórico de intolerância com a diferença e que essa intolerância é constitutiva da estrutura social do país.

“Há um lado cordial, certamente, que não podemos ignorar. Em momentos de crise as pessoas são solidárias, sofrem com a dor do outro. Mas, no cotidiano, as pessoas também são muito pouco solidárias com a dor do outro quando essa dor envolve, por exemplo, o mundo do crime”, analisou. “As pessoas dizem assim: ‘Se ele cometeu um crime não merece a minha consideração’.”

Ao analisar crimes recentes cometidos no Brasil, os massacres em presídios e as reações da sociedade no país, o sociólogo observa que “uma onda conservadora” se espalha pelo mundo, sendo que na América Latina, em especial, há uma cultura favorável à ideia de que criminosos “apodreçam na prisão”. O professor estabelece uma conexão entre essa ideia e a falência dos modelos democráticos contemporâneos de representação política. A atual conjuntura brasileira, de perturbação política e econômica, segundo ele, leva a uma “profunda descrença no futuro e em valores fundamentais”, além de estimular “opiniões muito reacionárias”.

“No Brasil ainda temos esse sentimento primário, que está lá na raiz da nossa consciência, de que a punição deve ser de tal maneira exemplar que você tem que retirar esse indivíduo do convívio dos humanos”, explicou. O discurso do combate ao terrorismo na Europa, acrescentou, segue essa mesma matriz de pensamento.

Via Terra

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