Hospital cria ambulatório para Transgêneros em Belém

Segundo especialista, serão recebidos pacientes do Pará ou de outros estados antes marginalizados, sem diagnóstico e sem tratamento. Segundo ela, muitos chegam a tomar hormônios por conta própria, se suicidar ou se automutilar.

Segundo a coordenadora do Ambulatório de Transgêneros do Hospital Jean Bitar, a endocrinologista Flávia Cunha, doutora em Distúrbios do Desenvolvimento Sexual (DDS) e Disforia de Gênero pela Universidade de São Paulo (USP), o tratamento no Pará foi autorizado pelo Conselho Federal de Medicina e implantado há dois anos, sendo que não havia centros especializados preparados para este tipo de tratamento fora de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Goiás.

Os pacientes são acolhidos na URE Dipe pelos assistentes sociais e psicólogos e iniciam uma psicoterapia. Se a pessoa for diagnosticada com disforia de gênero, ela inicia o tratamento do processo transexualizador, que se baseia em psicoterapia, hormonioterapia e as cirurgias.

Para que seja indicada a hormonioterapia tem que ser feita uma avaliação psicológica prévia. Se a pessoa for diagnosticada com disforia de gênero é encaminhada para o endocrinologista, onde fará toda a avaliação hormonal para a adequação ao gênero de identidade. Somente após o mínimo de dois anos de tratamento a pessoa pode ser indicada para as cirurgias do processo transexualizador.

Ao todo, 189 pacientes, sendo 102 homens trans e o restante mulheres trans, iniciaram o tratamento na URE Dipe, em outubro de 2015, e já completaram as etapas necessárias. “O próximo passo é fazer uma avaliação psicológica final para que eles estejam aptos a fazer a cirurgia, que é irreversível”, ressalta a endocrinologista.

O hospital Jean Bitar entra neste processo com o seu Ambulatório de Transgêneros, que passa a reforçar a hormonioterapia e avaliar os pacientes para a indicação de cirurgia. “A pretensão é que o hospital seja referência tanto para a hormonização quanto para as cirurgias”, diz.

Os primeiros atendimentos foram realizados em outubro de 2017. “Na região Norte este é o serviço mais articulado e conta com três endocrinologistas, além de outros quatro especialistas residentes, mais o serviço de cirurgia plástica, um psiquiatra e futuramente o serviço de ginecologia e urologia. A ideia é montar um serviço multidisciplinar completo para atender as demandas desta população”, ressalta a médica.

As primeiras cirurgias que serão realizadas serão as de mama: a mamoplastia, a retirada da mama no homem trans e a colocação de próteses nas mulheres trans. O próximo passo será a oferta da histerectomia para os homens trans (remoção do útero) e após, as cirurgias genitais, que são mais complexas.

“É uma conquista porque vai conseguir receber pacientes do Pará ou de outros estados e ofertar este atendimento para pessoas que estavam marginalizadas, sem diagnóstico, sem tratamento, ou pior, tomando hormônios por conta própria. É uma população de alto risco para o suicídio e para a automutilação”, esclarece a endocrinologista.

Para as mulheres trans a cirurgia de redesignação sexual envolve a reconstrução dos genitais (embora outros procedimentos possam ocorrer e, em muitos casos, algumas mulheres decidem não se submeter à cirurgia), enquanto que nos homens trans ela compreende um conjunto de cirurgias, incluindo remoção dos seios, reconstrução dos genitais e lipoaspiração.

Para o diretor executivo do Jean Bitar, Giovani Merenda, a expansão dos serviços aos usuários transgêneros no Pará, por meio do atendimento ambulatorial no hospital, é um marco na saúde pública. “É o início de um serviço que vai expandir ainda mais a assistência de qualidade, segura, humanizada, que evidencia o respeito e o resgate da dignidade que todo usuário SUS precisa e merece”.

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