A História da Corda do Círio de Nossa Senhora de Nazaré

cordaNo primeiro Círio, e em muitos que ocorreram até quase o final do século XIX, não havia a corda que puxa a Berlinda, ela só passou a fazer parte da procissão em 1885, quando uma enchente ocorrida na baía do Guajará provocou o alagamento da orla desde o Ver-o-Peso até a Igreja das Mercês, lugar em que a procissão  transitava, fazendo com que a Berlinda que conduzia a pequena imagem ficasse atolada e os cavalos não conseguissem puxá-la. Um comerciante emprestou uma corda, os animais foram desatrelados da Berlinda que conduzia a imagem e corda foi nela amarrada. Aí, os fiéis puxaram a Berlinda até a Igreja de Nazaré.

A partir daí, a corda foi incorporada às festividades e sobre ela ao longo dos tempos, várias análises, debates e crenças foram criadas, dentre elas, nos dias de hoje, a daqueles que segurando a corda, cumprem uma promessa, e a dos que vão com o objetivo de cortá-la, e guardar os pedaços, não só como uma lembrança, mas como algo que diante da fé potencialize a cura de uma enfermidade, apesar dos apelos feitos todos estes últimos anos, quando se intensificou esta prática, de afirmar ao contrário: que não seja cortada, ditos pelas autoridades religiosas, polícias, por jornalistas que fazem a cobertura da procissão, e tantas outras vozes antes e durante e após o percurso. Mas até o ano passado não foram ouvidas.

Este ano, a corda veio de Santa Catarina e a diretoria da Festa de Nazaré anunciou pela imprensa que vai manter a campanha contra o corte da corda na procissão, e afirma que “não são os promesseiros que a cortam e sim pessoas que se introduzem na procissão para fazer esse ato”. E aí se pergunta qual a razão dessas pessoas assim agirem? Será para obterem algum dinheiro vendendo como relíquia? Será pela crença no efeito milagroso da corda, de que fazer chá ou outro tipo de remédio com seus fragmentos irá curar a si ou alguém querido?

Nós, seres humanos, tão complexos em nossos humores e sentimentos, por certo vistos com muita complacência por Maria, que deve nos ver como crianças espirituais, disputando algo que é material, perecível e ainda não conseguindo sintonizar com o que é o espirito vivencial mariano.

Houve um tempo, antes do avanço da tecnologia, em que as mudanças eram mais lentas, as permanências se mantinham por mais de uma geração, e as que ombreiam comigo na idade cronológica viram o Largo de Nazaré com seus quatro coretos de ferro e um grande no meio, de alvenaria, e imbricado neles o arraial da Festa, onde estavam, para alegria das crianças, o cavalinho da d. Zaida Conduru, e os mais disputados eram os que faziam o movimento de subir e descer, a ola, no meu olhar de criança, uma roda muito grande, que girava em movimentos de ondulação subindo e descendo, a roda gigante (que de gigante nada tinha), a casa da farinha, o bar Soberano e a Barraca da Santa, com suas noites de jantares em benefício da Festa de Nazaré.

Os sentimentos, os namoros, as roupas, tudo estava de acordo com aquele tempo. Anos 50, anos 60. Vestido novo no dia do Círio e no dia da festa, tirar foto na frente da Basílica e comer sanduíche de queijo, mesmo sendo frio, mas não importava, feito com pão de forma, raridade lá em casa e aquela azeitona verde enfiada num palito dava-lhe um requinte inigualável. Era o máximo e ainda acompanhado do guaraná Soberano bem gelado!

Muitas pessoas dos diversos municípios paraenses que vinham passar o Círio, eram identificados como parentes ou amigos do interior, e eram levados pelos da capital ao arraial de Nazaré para passear, entrar na Igreja , beber caldo de cana e comer pão doce, considerados grandes iguarias. Nada de “burgues”, pizzas, churros, variedade de salgadinhos. Mas tacacá e outras comidas típicas da região estavam presentes nos carrinhos de alumínio.

Os anos passaram, os coretos foram sendo tirados, nem se sabe ao certo onde foram parar, eram os anos do período militar, o grande coreto do cento desabou, e aos poucos o lugar foi se modificando, os brinquedos modernos chegando e os antigos sendo retirados, mas nesse período passei a ver de longe o Círio, pela televisão, mas observando suas transformações, a sua logística, as várias procissões que foram sendo criadas, os vestidos novos substituídos pelas blusas com adornos relacionados à festividade.

Nossa família torna-se espírita e mesmo antes não sendo católica praticante, como dizem, sempre manteve o almoço do Círio, em que a maniçoba e o pato estavam presentes. Interessante que, com o passar dos anos, passamos a reunir a família para antes do almoço orar a Maria, unindo-nos aos nossos irmãos católicos para pedir por nossa cidade, por nosso povo, por nossas famílias.

Chega uma filha e volto ao arraial para levá-la nos brinquedos, agora já num parque ao lado da igreja, o antigo arraial se transformou em Centro Arquitetônico de Nazaré, e os brinquedos estão dentro de um parque de diversões, imensos e que, para os pequenos ou adolescentes, ou os jovens e mesmo os adultos, têm muita adrenalina. Se ouve gritos de terror, mas as pessoas quando saem riem e dizem que foi ótimo. Quem é mais velho não compreende, é assim. Cada tempo com seus divertimentos, com seus costumes. Cada Círio guarda a tradição dos anteriores, mas vai se modificando, e, nos dias de hoje, de maneira mais célere.

Mas e este ano? Diante de tantas situações desagradáveis que vivenciamos como população, indo do macro, da nação, do estado, da cidade, mas também enfrentando os turbilhões dos nossos espaços micros, lar, família, trabalho, diante da enfermidade, da droga, do desemprego, da traição, da depressão, daquele que partiu para outro plano de vida, que, as vezes, acreditamos existir e outras vezes não, de um acidente que nos deixa com limitações, de um chefe autoritário, de um lugar de condições difíceis de trabalho e aí lembramos de Maria, antes mesmo do Círio e oramos pedindo a ela sua intercessão, seu amparo de Mãe, este ano, denominada Estrela da Evangelização e a ela precisamos nos dirigir, independente dos festejos materiais, neste segundo domingo de outubro, em oração, unindo-nos a milhões de pessoas que pedem suas bênçãos misericordiosas a nos sustentar na fé, na esperança de dias melhores.

É hora, cada vez mais, de centrarmo-nos na figura principal do Círio: Maria, pois tudo o mais que compõe essa procissão, essa festividade, a roupa, o almoço, as ornamentações, os cânticos, estarão sempre sujeitos a mudanças, a variações, mas seja nossa fé capaz de mobilizar uma ação evangelizadora junto a Maria, essa será a melhor promessa que poderemos lhe fazer.

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