Educomunicação e Paulo Freire

Para entender a história da inter-relação comunicação e educação latino-americana após os anos 70, é preciso voltar os olhos para Paulo Freire que desenvolveu fundamentos sólidos para um novo modelo educomunicacional, essencialmente horizontal, democrático e dialógico.  A matriz freireana perpassa o pensamento de vários teóricos da comunicação da América Latina, principalmente Mário Kaplún (Nasceu na Argentina em 1923, se tornou uruguaio por opção e morreu em 1998), Jesús Martín-Barbero (Nasceu em Ávila na Espanha em 1937 e vive na Colômbia desde 1963), Guillermo Orozco-Gómez (Nasceu em Guadalajara no México em 1954), Francisco Gutiérrez (Nasceu na Espanha em 1928, ainda jovem veio para América Latina para a Colômbia e morreu em 2016 na Costa Rica onde vivia).

O educador, Pedagogo e Filósofo brasileiro, Paulo Freire (1921-1997), mais do que inaugurar um pensamento dialógico, democrático e libertador na pedagogia nacional e latino-americana, transformou-se em um marco na história da Educação. Sua concepção de educação popular abalou as bases do ensino elitista vigente, repercutiu internacionalmente e produziu uma ruptura no percurso histórico da educação/comunicação. Ele apostava na educação por intermédio do audiovisual. Além disso, acreditava também na educação em outros espaços que não o da educação formal.

O projeto educacional que construiu visava ao fim da opressão e das desigualdades sociais por intermédio do desenvolvimento da consciência crítica e histórica. Suas bases alicerçavam-se em uma teoria do conhecimento que se pautava pelo respeito ao educando, pela busca da autonomia e pela dialogicidade, a partir de um pensamento crítico e libertador, na busca pela igualdade, justiça e união, pressupostos orientadores na construção de novos paradigmas educacionais.

O projeto educacional que construiu visava ao fim da opressão e das desigualdades sociais por intermédio do desenvolvimento da consciência crítica e histórica. Suas bases alicerçavam-se em uma teoria do conhecimento que se pautava pelo respeito ao educando, pela busca da autonomia e pela dialogicidade, a partir de um pensamento crítico e libertador, na busca pela igualdade, justiça e união, pressupostos orientadores na construção de novos paradigmas educacionais.

Ao partir da realidade do educando para encontrar temas geradores que vivificassem a educação, Freire substituía uma visão mais simplista por outra crítica, e partia do pressuposto de que havia em cada ser humano um saber único, ainda que rudimentar, mas de onde era possível estabelecer uma nova relação com a vida. Inaugurava, assim, uma metodologia dialógica que renegava a transmissão vertical de conteúdos: do mestre, que detém o conhecimento, para o aluno, que devia absorvê-la. Essa educação que chamou de “bancária” estava na raiz da dominação cultural.

Para Freire, não existe educação neutra, é impossível separar o processo de aprendizagem do processo político, já que ao construir significados de uma realidade, estamos atribuindo valores que podem ser imobilizantes ou, ao contrário, ativos, que acreditem que reflexão e ação podem transformá-la.

 

A comunicação é o elemento pelo qual é possível transformar o ser humano em sujeito da sua própria história, vivendo uma relação dialética, em diálogo, que o conduz a uma consciência crítica e a uma transformação. A troca de experiências entre educandos e educadores é condição básica para aquisição do conhecimento, educar-se é envolver-se em uma rede de interações. Paulo Freire, foi um dos intelectuais brasileiro que primeiro refletiu sobre a inter-relação educação e comunicação, já que em “Extensão ou Comunicação?” defendeu um agir pedagógico libertador por meio de processos comunicacionais, ou seja, a comunicação já podia ser vista como componente do processo educativo

O modelo dialógico de Paulo Freire baseia-se no respeito pelo outro, não visa acomodação ou ajustamento, mas enfatiza a integração que torna o homem sujeito de suas ações e o afasta da condição de objeto, de dominado, sem vez e sem voz. Enquanto a adaptação é um conceito passivo, a integração implica engajamento no sentido de mudar, de transformar a realidade, criticando-a para ser capaz de mudá-la.

O termo educomunicação foi utilizado pela primeira vez pelo educomunicador, radialista e escritor uruguaio Mario Kaplún (1923-1998), para se referir expressamente à leitura crítica dos meios de comunicação, Kaplun também denominou inter-relação comunicação/educação de Comunicação Educativa, cuja função é dar à educação um suporte capaz de qualificar os docentes para que possam adquirir uma competência necessária ao uso adequado dos meios de comunicação.

 

O filósofo espano-colombiano, Jesús Martín-Barbero, criou o conceito de ecossistema comunicativo, entendido como o conjunto de ações que viabilizem a promoção e ampliação das relações de comunicação entre as diversas pessoas e instâncias que compõem a comunidade educativa. Inclui desde a organização do ambiente até a disponibilização dos recursos. Estimula a descentralização do poder, o diálogo, a interação e a abertura de espaços para diferentes experiências e vivências culturais.

Para Martín-Barbero a cultura ocupa um lugar de destaque como elemento fundamental na área de comunicação. Assim como Paulo Freire, Martín-Barbero destaca a participação do receptor como agente ativo, capaz de interferir e mudar o significado da mensagem recebida; os dois autores ressaltam a importância do cotidiano dos sujeitos na interpretação do conteúdo emitido. A cultura é um conceito fundamental na obra de Paulo Freire, em torno dele gira todo o processo de aprendizagem como conscientização.

O mexicano, Guillermo Orozco-Gómez, Doutor em Educação pela Universidade de Harvard e professor titular da Universidade de Guadalajara criou o conceito das “múltiplas mediações”, a partir das múltiplas identidades formadas no mundo atual; ser audiência não significa deixar de ser sujeito social, por exemplo. Outro conceito abordado por Orozco-Gómez, está situado neste contexto: o de “audienciação“, onde as audiências são múltiplas e simultâneas de diversos meios e de tipos diferentes de referentes midiáticos e de tecnologia. Por causa dessa “multiplicidade”, o receptor não pode estar “jogado ao vento”: ele deve ser considerado como situado histórica, cultural e socialmente, mas participante de varias instituições simultaneamente, onde adquire suas identidades, dando sentido às suas práticas, trata-se de perceber o receptor como um “múltiplo agente social”.

O educador espano-colombiano, Francisco Gutierrez, fez considerações sobre a realidade da escola e da televisão. Levanta propostas alternativas para o estabelecimento de relações entre estas instituições, que tragam prazer, sentido e significado à vida dos estudantes. Gutierrez estuda também sobre a Pedagogia da Comunicação, responsável por uma abordagem pedagógica dos meios de comunicação. Francisco Gutierrez foi diretor fundador do Instituto Paulo Freire, atuou em diferentes países latino-americanos, especialmente na Colômbia, Panamá, Costa Rica, Brasil e Peru. Escolheu a Costa Rica como local de vida durante a maior parte de seu tempo e, neste país, escreveu o livro Ecopedagogia e Cidadania Planetária. Nesta obra inovadora, com paixão e emoção, convida a todos e todas para um compromisso efetivo com a ecopedagogia, a pedagogia necessária à promoção da vida sustentável. Na foto ao lado estão Paulo Freire, Moacir Gadotti e Francisco Gutiérrez (de preto) no Instituto Paulo Freire, em 1995, discutindo a edição do livro “Paulo Freire: uma biobibliografia”.

O pensamento educacional de Paulo Freire, atravessou países e continentes, saindo do Brasil passando pela América, chegando na África e na Ásia, influenciou a criação de programas e práticas educacionais, contribuindo para disseminação da educação e da escola popular. Freire espalhou pelo mundo, a esperança e um movimento emancipador, cujo objetivo, por meio do comprometimento político com as classes populares, é promover a autonomia dos sujeitos e viabilizar a transformação social. O seu legado educacional permanece pleno de desafios, porque os temas em debate, presentes em suas obras, continuam atuais, refletem contextos sociais e culturais diversos, que ainda estão em estudos e que se tem muito a pesquisar, como por exemplo, a Educomunicação.

Espero que tenham gostado da nossa coluna semanal Educomunicação no jornal Estado Online, um espaço educomunicativo democrático, aberto e participativo. Se você gostou comente, curta compartilhe e deixe seu comentário. Um grande abraço a todos e até a próxima semana.

 

Vitor Sousa Cunha Nery

4 COMENTÁRIOS

  1. Apostamos nas teses de Paulo Freire e o cultuamos quase como um deus e agora colhemos os frutos.

    Ninguém aprende nada direito, nossos alunos tiram as piores notas nos testes internacionais, nossas provas de avaliações são verdadeiros testes de ideologia comunista, as escolas são pontos de venda de drogas e prostituição e por aí vai.

    O momento agora era de “chutar” os ditos “especialistas” das tomadas de decisões e assumirmos a responsabilidade. Mas não, continuamos a ouvi-los, agora, dizendo que não deu certo porque não há verba/dinheiro e que os impostos precisam aumentar, os salários dos professores também, a estrutura da escola, o estado precisa dar uniforme, sapato, lápis aos alunos, etc. Mas sobre educação propriamente dita não falam nada porque na verdade não se trata disso.

    Se quiserem continuar acreditando nesses “especialistas” desliguem os sentidos da realidade e embarquem novamente nessa barca furada.

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