Educomunicação e o rádio no Brasil

Podemos dizer que a chegada do meio radiofônico no Brasil era uma tentativa de aproximar a educação da comunicação. A primeira emissora de rádio, no Brasil, foi criada em 1923, conhecida como a Primeira República, por Roquette Pinto e apresentava contornos educacionais, logo nos primeiros anos. Roquette Pinto, tinha uma programação em três horários diferentes (8h, 12h e 16h), com quinze minutos de duração diária, diretamente para receptores em escolas da rede pública da cidade. Tal programação fazia parte de uma série de iniciativas para formação de cidadãos.

Já no Inicio de 1930, o rádio ganha status de espetáculo. Com a possibilidade de atender a anseios mercadológicos, começa a investir em profissionais do meio artístico. Foi nessa época que surgiram os programas de auditório, programas humorísticos e novelas.

O Governo de Getúlio Vargas preocupado com a sobrevivência do meio radiofônico cria a 1ª lei para o rádio – Decreto nº 21.111, de 1º de março de 1932, quando autoriza que em 10% da programação da emissora de rádio poderiam veicular propagandas comerciais (atualmente são 25%). Como resultado, a produção que até então era erudita passou a ser popular e os interesses dos empresários do rádio passam de educativos para mercadológicos.

Na mesma década, o Presidente da República Getúlio Vargas cria o Departamento Oficial de Propaganda (DOP). Logo depois, o órgão governamental passa a ser denominado como Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). Esse organismo tinha como função específica fiscalizar e censurar a programação das emissoras de rádio.

Vargas passa a enxergar, no rádio, um nicho político fecundo. Isso fica evidente quando ele estatiza a Rádio Sociedade, fundada em 1936, no dia 1º de março de 1940. Vale lembrar que a Rádio Sociedade era uma rádio estritamente comercial.

Getúlio Vargas reconhece a importância do meio radifônico e acredita no seu potencial político. Quando volta ao Governo como presidente eleito, em 1950, resolve trazer para bem perto o meio que o ajudou a construir sua identidade. Ele, então, constrói um grande estúdio, da Rádio Nacional, dentro do Palácio do Catete e, assim, dá início à sua estratégia.

Getúlio Vargas é um divisor de águas para se pensar no rádio como viés prioritário para a construção de um projeto político. O traço essencial da gestão Vargas será a integração e criação de uma identidade nacional, tendo no rádio um dos seus principais suportes. A Hora do Brasil sintetiza o esforço deste governante para a coesão nacional.

A hora do Brasil ainda continua com o mesmo viés político, porém, não há tanta eficácia quanto no passado, mesmo sua veiculação sendo obrigatória a todas as rádios do país. Isso se deve, também, ao advento de outras mídias, como a televisão e, recentemente, o computador e a Internet.

A partir da década de 1960, o rádio começa a enfrentar seu maior rival, a televisão. Nessa época, o rádio é reconfigurado, sua programação passa a ser mais popular, já que os principais programas radiofônicos, novelas e programas de auditórios, migraram para a televisão. Nesse período, o radiojornalismo ganha ênfase e o rádio tende a ser mais informativo.    Na mesma década, a rádio FM (frequência modulada) surge como uma opção interessante para quem gosta de música. Com mais qualidade do que as AMs (amplitude modulada), as FMs ganham força e, com o tempo, conquistam a juventude brasileira por meio do entretenimento (muita música).

Por conta dessa popularização das rádios FMs, o governo do Presidente Ernesto Geisel, intensifica o investimento nas novas emissoras, já que as mesmas tinham mais qualidade, porém, não tinham o mesmo alcance que as rádios AMs. O meio se transformou, então, em estratégia política/militar para assegurar o controle e adequação à política de “segurança nacional”. Para ajudar na concretização de tais ações, em 1975, o General Geisel lança a RADIOBRÁS (Empresa Brasileira de Radiodifusão).

Esses dados sobre usos políticos que foram atribuídos ao rádio convencional em determinados momentos da história do país reforçam que este é um instrumento em torno do qual disputas de poder podem ser firmadas. Instrumento este, cujo alcance transforma, também, em um potencial instrumento político.

Os pensamentos até aqui relatados como fundantes da educomunicação ganham repercussão no Brasil, por meio do projeto rádio escolar, que surgiu na década de 1980, na Universidade de São Paulo, através de Ismar Soares que, balizado pelos estudos de Kaplún, alargou o conceito de educomunicação trazendo-o para dentro do ambiente escolar.

Ismar Soares, propõe que o universo radiofônico, com suas técnicas, pode facilitar o nivelamento entre as relações envolvendo professores e alunos, da dimensão vertical para a horizontal. Para ele, eliminar a verticalidade entre as relações tornaria possível uma comunicação democrática e participativa dentro do ambiente escolar.

O processo educomunicacional em ambiente escolar se configura, portanto, como um campo de investigação extenso que ainda necessita de aprofundamento, principalmente por parte de pesquisadores ligados à área de educação e comunicação. Isso fica evidente quando percebemos a utilização inadequada dos meios de comunicação dentro espaço escolar.

Apropriando-se do conceito proposto por Kaplún, Soares leva para dentro do ambiente escolar o conceito Educomunicação, através de um projeto que foi batizado de edcucom.radio. Essa foi uma proposta do Núcleo de Comunicação e Educação da Universidade de São Paulo – NCE/USP para minimizar a violência escolar financiado pela Secretaria de Educação da Prefeitura Municipal de São Paulo.

Para tanto, a formação – oferecida aos sábados, ao longo de 12 semanas, em sete fases, corresponde a sete semestres sucessivos, entre 2001 e 2004 – buscou atingir 25 pessoas de cada uma das 455 escolas matriculadas (aproximadamente 12 professores, 10 alunos e três colaboradores da comunidade). Um total de 11 mil membros das comunidades educativas (sendo 6.600 professores, 3.500 alunos e 900 membros das comunidades) foram habilitadas a planejar o uso do rádio para melhorar as relações de comunicação em suas respectivas escolas. As formações ocorriam em polos, nas várias regiões da cidade, reunindo, cada um, entre 80 a 120 pessoas.

Segundo este pesquisador, das 455 escolas que receberam formação no período citado, apenas 300 foram beneficiadas completamente, ou seja, receberam equipamentos para a instalação das emissoras. A contabilidade apurada, nessa ação específica, mostrou uma redução considerável nos índices de violência nas escolas participantes do projeto.

A redução, na média, de 50%, e, em alguns casos, de 95% dos registros de violência nas escolas do Município de São Paulo atendidos pelo Educom.rádio mostra a eficácia do uso da comunicação como forma de convivência social.

A publicação do resultado obtido, com o projeto em escolas da cidade de São Paulo, ecoou de forma positiva nos corredores do Ministério da Educação. Dessa forma, o MEC incluiu o conceito, Educomunicação, em seu programa de governo, conhecido como “Mais Educação”, que tem como finalidade fazer com que o aluno permaneça em ambiente escolar por mais tempo.

Espero que tenham gostado da nossa coluna semanal Educomunicação no jornal Estado Online, um espaço educomunicativo democrático, aberto e participativo. Se você gostou comente, curta compartilhe e deixe seu comentário. Um grande abraço a todos e até a próxima semana.

Vitor Sousa Cunha Nery

3 COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here